“A Matter of Taste” com Miguel Somsen
O convidado desta semana é o jornalista Miguel Somsen que diz que “Foi a música que me fez; acho que ela merece uma retribuição digna. A música fez de mim jornalista, “animador de rádio” e DJ nas horas vagas; hoje protejo-a de tempestades e bruxarias. A música forra as minhas neuras, corrige-me as virtudes, neutraliza a depressão. Trato-a como se fosse da família, sendo que ela é a família. É esta obsessão pela música que me faz escrever profissionalmente hoje sobre tudo menos sobre a música. É como se ela fosse um segredo bem guardado. Sou copywriter nas auto-promoções TVI, colaborador de Moda LX e jornalista freelance para revistas Vogue, Luxwoman e Rotas e Destinos, onde faço viagens e gastronomia.”
Qual o álbum da tua vida?
Não tenho apenas um álbum de vida porque a minha vida se faz de várias vidas e álbuns respectivos. Marcantes? High Land Hard Rain, dos Aztec Camera, no início dos anos 80, porque fez a minha cama na pop. Mais tarde nos eighties, From Across The Kitchen Table, dos Pale Fountains; Seance, dos The Church; The Clock Comes Down The Stairs, dos Microdisney; e Stone Roses, Stone Roses, Stone Roses! Nos anos 90, depois de uma licença sabática para aprender cinema, voltei com os Divine Comedy. Casanova é até hoje o melhor disco de Neil Hannon. Ultimamente, The Trials of Van Occupanther, dos Midlake.
A musica que te pode fazer levantar da cama às 7h a dançar?
As melhores músicas são as que me impedem de estar deitado às sete da manhã da noite anterior. I Feel Love, cantado por Jimmy Sommerville com os Communards é uma delas. Dancing Queen dos Abba. Outra, Electric Dreams, cantado por Phil Oakey, dos Human League. Por falar nisso, eu cá sou mais Human League que Depeche Moshe, perdão, Mode. Outros grupos que me fazem querer aprender a dançar: Royksopp, Mylo. Ou Borderline da Madonna.
A musica que preferias que os teus amigos não soubessem que gostas?
Os meus amigos deveriam ter vergonha por não saber a música que gosto ou gostei. De qualquer forma, costumo dizer que qualquer currículo tem um cadastro. No meu caso, eles vêm da minha puberdade, a chamada idade pobre: Os dois primeiros álbuns dos Dire Straits, que ainda hoje considero maravilhosos (Communiqué e Love Over Gold). Qualquer coisa de Alan Parson Project, na fase Eric Woolfson. Sempre gostei de Abba, muito antes da Abbamania. E agarrei todos os Eurofestivais possíveis e imaginários, principalmente quando começaram a aparecer as bandas croatas com miúdas a dançar sem soutien. Música que eu gostaria que os meus amigos soubessem que não gosto: grunge.
A banda que nunca viste em concerto e pagavas muito para ver?
Midlake. Portugal chegou a tempo aos Arcade Fire, um bocadinho atrasado aos The National, e já não vai a tempo de agarrar os Midlake. Mas eu não sou um tipo de discos ou concertos ao vivo. Passado meia hora no espectáculo começo a olhar para o relógio para ver se ainda haverá algum restaurante onde eu possa jantar antes do segundo encore da banda. Sou insuportável, saí a meio do primeiro Tricky em Portugal e do 26º espectáculo dos Massive Attack em Massamá…
Banda portuguesa favorita?
GNR da fase pop. The Gift, primeiro e segundo álbum. Os Plaza, de Quico Serrano e os irmãos Praça. E Pop Dell’arte, sempre.
Música portuguesa que fica para a história?
Remar Remar, dos Xutos e Pontapés. Viva a Preguiça, dos GNR. E Querelle, dos Pop Dell’arte, que há mais de vinte anos me faz dançar.
Qual é o som da tua cidade preferida?
É o som preferido da minha cidade: Lisboa. Os eléctricos, porque me fazem lembrar a infância passada na casa da minha avó na Estefânia (quando ainda passavam eléctricos). De resto, o som da minha cidade faz-se de ruído e poesia de rua, de ferro no carril, rodas no asfalto, os pregões em Alfama e os regateios na feira da Ladra. E a banda sonora que sai dos cafés onde se joga a bola. Uma alternativa internacional? Todos os sons orientais que saem de Istambul ocidental.
Que tipo de festa não existe em Portugal e deveria existir?
Big band ou crooners. Na verdade, existem espaços para big bands mas estão devolutos. E nenhuma big band ou crooner pode actuar por si, terá de ter uma contextualização conveniente e profissionalismo inexcedível. O que é essencial e falta: um local onde se jante até às três da manhã a ouvir uma banda ao vivo que toque como se a Lei Seca ainda vigorasse. A carência é irmã da iniciativa.